crônica



Para ler ouvindo. E depois assistir.


Eu vou-me porque não quisera amar mais, desistiu dos sonhos, de tudo o que eu fiz. Enfrentei o que antes não me importava mais, aquilo que eu, tola, afoguei.

Não quisera mais dar-me filhos do amor. Os filhos do amor eram os beijos, o abraços, as mãos dadas no escuro, os risos nos olhos, as corridas ao lugares secretos…

Morri em mim mesma e esse é um adeus. Se eu fosse jovem, fugiria dessa cidade, beberia até morrer. Assisto eles rasgarem o silêncio de nosso acampamento. Começou a estação das caças aos amores Romeu & Julieta.

update: download da música aqui.

Quem está ansioso por Capitu? Assistam e depois me digam o que achou.

Aproveitando a chuva, decidi matar aula pra ficar em casa e adiantar alguns trabalhos de faculdade. Dentre os trabalhos finais, eis um deixado para última hora – sempre tem um desse… – para a disciplina de Psicologia Comunitária, que na verdade estuda a temática “Família”. Estou bem eu escrevendo sobre as mudanças no conceito de família, sobre as questões de mães/pais solteiros, homoparentalidade e sobre a questão dos papéis dentro da família, sobre os filhos poderem e terem o espaço de ensinar os pais…

Daí meu telefone celular toca. Meu pai. A pergunta do outro lado: “Filha, você sabe a minha senha do msn?”. “Pai, você não decorou?” “Liguei pra Laisa mas ela também não sabe… vê aí pra mim quantas bolinhas são…”

É uma pena trabalho científico de faculdade não incluir peripécias da vida privada. A não ser, claro, que tenha uma singela “Ambrósio et al, 2008″ no final da citação.

ps: e faltam quantos dias mesmo para as férias?

Existe um cachorro na minha rua.

Ele, sem dúvida, é o cachorro mais livre que eu já vi em toda a minha vida. Ele nunca está preso a uma coleira e raríssimas vezes o vi trancafiado em sua casa.

Todo os dias, enquanto caminho em direção ao ponto de ônibus próximo da minha casa, via-o bisbilhotando a rua. Passava ao meu lado sem me dar a mínima. Não queria gratificação, nem respeito. Ele só queria mesmo era estar ali nas redondezas.

Quando atravessava a rua, olhava para os dois lados. A pista estava vazia. Então ele simplismente desfilava até o outro lado. Se surgia algum automóvel na pista, ele acelerava o passo e dava os seus pulinhos graciosos. Aqueles que cachorros bonitos sabem dar.

Quando eu chegava perto dele, ou qualquer outra pessoa, ele não se movia. Ele não tinha medo. Ele esperava. Acho que não temia se o próximo movimento ia ser um afago ou um safanão nas orelhas. Ao contrário de muitos de nós, ele esperava pelo outro.

Nunca vi o tal cachorro metido em latas de lixos. Quando tomava banho, ele ficava imóvel na calçada de sua casa e esperava enquanto o dono ensopava-o de água e sabão.

Já faz alguns dias que não o vejo e agora em sua antiga casa reside um outro cachorro. Um bem diferente, porque esse é daqueles alegrinhos. Vai ver que de tanto passear ele acabou indo, indo, indo até se perder de vez, como muitos de nós gostaríamos de fazer.

Ele deve estar bem, pois sabia se cuidar. E mal saberá um dia que existe um texto só pra ele o tal do cachorro da minha rua.

Sentou no chão do quarto e se pôs a recortar. Não se via mais nenhum espaço vazio da madeira do piso. Agora, ele estava todo coberto de papéis coloridos, pontinhos brilhantes, tesoura, cola, adesivos, lápiz de cor, canetinha, giz de cera e fotografias. Alguns dos outros materiais provavelmente devem ter rolado para debaixo da cama.

Clarissa se levantou para pegar um copo de água. Voltou e parou na porta do quarto. Viu o quanto sua mãe estava certa: seu quarto estava uma bagunça. E estava há uns dias já. Voltou ao único local aonde havia um espaço vazio e sentou-se novamente.

A bagunça, ao menos, no final valeria a pena. Viu numa papelaria perto da faculdade um jeito diferente de fazer um album de fotos. Comprou os papéis coloridos para fazer o tal do scrapbook. Voltou para casa e escolheu no computador as melhores fotos que tinha com ele. Esse foi o único momento que Clarissa percebeu que não tinha nenhuma foto impressa em nenhum porta-retrato da casa com ele. Salvou as fotos no mp3 e foi procurar um lugar para revelar.

Isso já tinha acontecido há umas duas semanas. A crise no namoro já durava uns 2 meses.

Hoje, estava faltando pouco. Pouco para terminar o trabalho e pouco para ele chegar. Ouviu a campanhia tocar. Levantou-se com calma, e foi andando até a porta. Lembrou-se de como, antes, ficava esperando com os olhos grudados no olho-mágico, esperando a mágica visão dele. Agora, já sabia quem era e abriu a porta sem olhar ou perguntar quem era.

Ele estava com aquela blusa que ela detestava. Clarissa estava usando o perfume que ele mais elogiava. Não quis entrar, e no embaraço todo pediu desculpas a Clarissa e disse que não podia entrar. Disse que jamais poderia entrar de novo. Clarissa não desviou o olhar, mesmo quando ele desviava olhando para os lados e para baixo. Clarissa só disse duas palavras: eu entendo. Ele levantou os olhos e disse que agradecia por ela ser tão compreensiva, como sempre. Disse também que esperava vê-la por aí. Ela só balançou a cabeça.

Fechou a porta e ficou alguns segundo olhando – através dela, será? – e virou de volta ao quarto. Parou na porta e olhou novamente a bagunça desolada, mas não sentiu nenhuma lágrima subir aos olhos. Caminhou até o único lugar aonde dava para ver a madeira do quarto e pegou a fotografia ao seu lado. Era uma tirada no jardim da casa dele, no dia dos namorados. Eles estavam se beijando. Colou essa foto na última página e guardou o álbum terminado na gaveta.