Sentou no chão do quarto e se pôs a recortar. Não se via mais nenhum espaço vazio da madeira do piso. Agora, ele estava todo coberto de papéis coloridos, pontinhos brilhantes, tesoura, cola, adesivos, lápiz de cor, canetinha, giz de cera e fotografias. Alguns dos outros materiais provavelmente devem ter rolado para debaixo da cama.

Clarissa se levantou para pegar um copo de água. Voltou e parou na porta do quarto. Viu o quanto sua mãe estava certa: seu quarto estava uma bagunça. E estava há uns dias já. Voltou ao único local aonde havia um espaço vazio e sentou-se novamente.

A bagunça, ao menos, no final valeria a pena. Viu numa papelaria perto da faculdade um jeito diferente de fazer um album de fotos. Comprou os papéis coloridos para fazer o tal do scrapbook. Voltou para casa e escolheu no computador as melhores fotos que tinha com ele. Esse foi o único momento que Clarissa percebeu que não tinha nenhuma foto impressa em nenhum porta-retrato da casa com ele. Salvou as fotos no mp3 e foi procurar um lugar para revelar.

Isso já tinha acontecido há umas duas semanas. A crise no namoro já durava uns 2 meses.

Hoje, estava faltando pouco. Pouco para terminar o trabalho e pouco para ele chegar. Ouviu a campanhia tocar. Levantou-se com calma, e foi andando até a porta. Lembrou-se de como, antes, ficava esperando com os olhos grudados no olho-mágico, esperando a mágica visão dele. Agora, já sabia quem era e abriu a porta sem olhar ou perguntar quem era.

Ele estava com aquela blusa que ela detestava. Clarissa estava usando o perfume que ele mais elogiava. Não quis entrar, e no embaraço todo pediu desculpas a Clarissa e disse que não podia entrar. Disse que jamais poderia entrar de novo. Clarissa não desviou o olhar, mesmo quando ele desviava olhando para os lados e para baixo. Clarissa só disse duas palavras: eu entendo. Ele levantou os olhos e disse que agradecia por ela ser tão compreensiva, como sempre. Disse também que esperava vê-la por aí. Ela só balançou a cabeça.

Fechou a porta e ficou alguns segundo olhando – através dela, será? – e virou de volta ao quarto. Parou na porta e olhou novamente a bagunça desolada, mas não sentiu nenhuma lágrima subir aos olhos. Caminhou até o único lugar aonde dava para ver a madeira do quarto e pegou a fotografia ao seu lado. Era uma tirada no jardim da casa dele, no dia dos namorados. Eles estavam se beijando. Colou essa foto na última página e guardou o álbum terminado na gaveta.