Quem observava aquele moço dormindo na calçada, envolvidos em farrapos não acreditaria se eu lhe dissesse que aquele pobre homem um dia havia sido um homem de negócios. Daqueles de terno e gravata, com barba feita e perfume importado. Daqueles com um carro de ar condicionado e direção hidráulica, bem sucedido e sem amor. O típico empresário.

Não era satisfeito porque havia falta. Sentia dor no pobre coração, que pulsava acelerado na academia às dez horas da noite, o único horário que havia disponível. Não tinha amor.

E por não ter amor, começou a andar distraído, olhando para o céu, admirando o seu infinito azul. Descobriu sozinho que o céu não é só azul e que as nuvens não só são brancas. Há cores nas nuvens, e nelas via branco, cinza, amarelo, laranja, vermelho… assim como o namorado descreve com precisão os olhos da namorada, esse homem conseguia esmiuçar as cores do céu.

Mas o céu, por ser muito longe, era paixão platônica demais, e o pobre coração batia sofrido calado no peito. E de tanto olhar para o céu, os pés perderam o caminho e tropeçaram na calçada sendo reformada próxima aonde seu carro estava estacionado. Na noite, aquele homem contemplou o asfalto.

O asfalto a luz da noite brilhava com tantos pontinhos luminosos dos reflexos das estrelas e da luz, dos faróis do carros e do semáforo que lembrou-se instantaneamente da cantiga que ouvia na sua infância. Cantarolou “se essa rua, se essa rua fosse minha…”.

Tomado de tamanha compaixão, decidiu morar por ali. Não sei que pensamentos lhe ocorrem naquele instante e quando o perguntei mais tarde, só me disse: apaixonei.

E desde então, dorme os dias quentes na calçada e permanece acordado a noite, suportando o frio contemplando sua luminosa amada.

Por não alcançar os céus, preferiu manter os dois pés no asfalto e se entregar.

* Inspirada na canção “Ana e o mar”, do Teatro mágico. Você consegue ouvi-la e adquiri-la gratuitamente aqui.