Tive um professor no semestre passado que dizia que, para sermos bons psicólogos, deviámos passar por várias situações, experimentar a vida, e aí conseguiríamos entender melhor as vivências de nossos pacientes. Ele recitava uma frase de uma canção que já não me lembro a melodia mais que dizia “você sabe o que é ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer?“. E eu sempre dizia por dentro “sim, eu sei”.

Ter um amor e por ele quase morrer é aquele que você realmente morrer, aquele que a Amy canta que morreu já umas cem vezes, mas que ao contrário da outra canção, as lágrimas não se secam por elas mesmas. Aquele que, bem diferente, faz chorar sempre sentada na pedra mais alta ao sol, tomando banho de vento, ouvindo o querido Mr. Rice sussurrando desesperado this has got to die, this has got to stop mas que você sabe que nunca vai conseguir colocar someone else on top.

Ter um amor e por ele quase morrer é aquele que você não vislumbra ser feliz nem em abril, em Paris, nem em outono no rio. Aquele que é quase impossível let in la vie en rose.  Aquele que te faz chorar com trilha sonora de filme da Disney e se emocionar relembrando frases decoradas de filmes, mesmo que eles não sejam romanticos…

Ter um coração partido é dolorido e belo: ao menos, me aproximo mais dos poetas. Para ser poeta – ou toda poesia – amores não correspondidos são necessários. Espanca que o diga.

O que me acalenta é que as coisas que eu não tenho para quem dizer ao menos servirá para alguma coisa. Aqueles queridos futuros pacientes poderão ter em mim o ouvido do amigo que foi embora. E quando eles perguntarem “você sabe o que é ter um amor, doutora, e por ele quase morrer?” eu vou poder sorrir e dizer “sim, eu sei”.

Ilustração: Tara McPherson