devaneio


Essa noite, não sei bem ainda porque, faltou luz numa região do meu bairro. Toda vez que falta energia, eu acordo imediatamente. Isso porque o ventilador para de girar. Daí, sempre levanto da cama e ando cambaleando para o quarto dos meus pais conferir se a energia realmente acabou ou meu ventilador pifou. Eu não sei porquê bem ao certo, mas sinto muita aflição de ficar sem energia elétrica. E me acalma imensamente saber que na rua de atrás tem luz. É como se o mundo não tivesse acabado por completo da escuridão. Coisas pra terapia individual, quem sabe.

Mas o que mais irrita mesmo é o barulho do silêncio. É nessas horas que se percebe o quando tem barulho em volta. Aquele zunido é de uma perturbação tão grande que eu tenho que tentar ao máximo não me concentrar nele.

Eu sou acostumada a ouvir. Seja lá o que for. Embora eu passe muito tempo em silêncio, ouví-lo não é para mim. Para minha profissão, esse ato de ouvir, escutar, é bastante importante e acabo exercitando isso demais, seja nos atendimentos, nas entrevistas, nas discussões, etc.

O problema – é que eu sempre vejo alguns problemas, percebeu? – é que, quando alguém ouve em demasia, acaba falando de menos. E eu, como todo mundo, que tenho 1 boca e 2 ouvidos, acabando falando/ouvindo na mesma proporção: 1/2. Se ouvir é um exercício, falar também é, e talvez eu esteja precisando de umas boas 3 séries de 30 para compensar a atrofia nesse músculo.

Eu até fico me perguntando o porquê de uma simples falta de energia momêntanea – porque durou menos do que 2 horas – me fez pensar tanto assim… talvez eu devesse bem comprar uns tampões de ouvidos e escutar o silêncio mais um pouco. Mas só um pouco, porque no resto, quem vai falar sou eu.

A falta de luz também me fez lembrar desse clip. É um clip gravado num local remoto (segundo procurei na web, em Greenland – Arkansas), que poderia facilmente ser caracterizado como silencioso, o que não é nem um pouco depois que eles começam a tocar. Gosto também do movimento e desaceleração.

Eu não sei quanto a vocês, mas essa está sendo uma semana estranha para mim.

Sei que provavelmente o nome “Michael Jackson” vai ser escrito zilhões de vezes por blogs, orkut, sites, twitters e afins na net. Eu não sei quanto a vocês, mas às vezes dá uma sensação que gente famosa não morre, sabe como é? Quando minha irmã me chamou e anunciou que o MJ morreu eu logo pensei “ah, tá de brincadeira… isso é boato”, como se isso fosse impossível de acontecer. São figuras que eu cresci vendo, fazendo sucesso, influenciando pessoas, sendo processado (rá, não aguentei!) e daí, pronto, acabou.

Outra coisa, que me deixa bem mais triste, foi a morte da eterna pantera loira Farrah Fawcett. Nessa semana mesmo vi toda feliz uma matéria no jornal falando sobre o pedido de casamento que recebeu do seu companheiro… e daí, dois dias depois, ela morre. O que me leva a recordar do menino aqui de Vila Velha que estava naquele avião pra França e tinha acabado de ficar noivo.

Eu fico muito pensativa com acontecimentos assim, em como a vida é breve, passageira… me consola conhecer algo que me dá esperança, que me faz sonhar com uma vida futura.

Não sei. Só precisava escrever pra racionalizar tudo isso. Mas, na verdade, é tudo sentimento e sensação.

E você? Como sentiu essa semana?

Quem já viu o ótimo “Conduzindo Miss Daisy” (1989) sabe o que eu quero dizer quando digo que morro de medo de sair da garagem como ela. Se alguém me assistir dando partida e sair com o carro vai ver: eu poderia fazer um remake e ser chamada somente de Miss Laís.

Exageros a parte, ontem foi um dia de vexame. Ainda bem que não perguntaram muito quando voltei mais cedo da aula e segurando o choro. Fazia tempo que não me sentia tão insegura para fazer algo.

Para quem não sabe, eu estou começando agora as aulas prática e ontem foi minha terceira aula. Faço duas por sábado, porque é o único horário que posso. E, desabafando legal, eu fiquei tão apavorada dirigindo que começei a chorar e o instrutor me levou de volta para casa. O coitado até me perguntou se ele tinha feito algo, mas não tinha sido ele.

Eu nunca tinha sentindo fisicamente uma coisa tão abstrata como “ter controle da situação”. É um descontrole tão grande que ao me ver em um veículo guiado por mim, no trânsito, com uma pessoa do lado, crianças na rua… me deu um pânico de responsabilidade que eu tive que fugir.

Passei o sábado inteiro com vergonha, mas o que se há de fazer? Fugir não é mesmo o melhor caminho, mas de onde tirar forças pra enfrentar não a responsabilidade de dirigir – porque, para quem ainda não entendeu, isso é uma metáfora – mas a responsabilidade de tanta coisa. ..

Às vezes, a gente precisa freiar, sem usar embreagem nem nada – que, aliás, odeio – e parar de vez. Desligar o carro, puxar o freio de mão (é essa a ordem?),tirar o cinto de segurança e abandonar tudo. E esperar ter alguém do lado que te mostre o caminho.


Para quem não viu, tem o filme completo no youtube, sem legendas.
A cena que falei no post é a primeira do filme e
acontece logo nos primeiros minutos do video acima.

balloonist2

Não entendo porque praticamos certos hábitos que não nos levam a lugar algum. Hoje me peguei mentindo para uma total desconhecida, na fila do ônibus. Ela perguntou-me se eu tinha uma caneta e imediatamente lembrei-me da caneta cortesia de uma medicação qualquer que havia colocado em minha bolsa antes de sair. Mas, sabe-se lá porque cargas d’água eu respondi “não”.

Assim que ela respondeu “obrigada”, eu começei a pensar o porquê de eu ter soltado uma mentira tão boba e tão despropositada. O que ia interferir na minha vida dizer “sim, eu tenho uma caneta, toma aqui”? Nada.

O mais engraçado é que em situações aonde eu teria uma “razão” para mentir eu falo a verdade, mesmo que isso me leve a punição. Acho que o meu problema é que nessa minha dicotomia de querer estar distante e ao mesmo tempo perto me faz perder a noção de quem manter perto e quem manter longe. E aí, num descompasso de comportamento evito um contato, mesmo que frívolo, com alguém que a única coisa que fez foi me dá um sorriso sem querer nada em troca.

Não sei que tipo de relacionamento quero e espero das outras pessoas de mim. Mas só me lembro de um frase que li a muitos anos, em um livro da Maitena: “pessoas inalcançáveis nunca são alcançadas”. Parece óbvio, mas preciso aprender isso.

Ilustração: Moidsch

#1

Revelações noturnas a

Assistir tv de madrugada é bastante elucidativo, mas perturbador. Quando você ouve um teatro lotado de gaúchos berrando “ah!, eu sou gaúcho” com vontade realmente de ser separar do país, eu não sei se rio ou se choro. Perdoe-me os gaúchos. É, você mesmo. 😉

Revelações noturnas b

Conclusão de duas irmãs desoladas com o mundo musical. Você ouvir as belíssimas sílabas métricas de Charlie Brown deve ter feito Drummond dançar Créu no túmulo. Minha irmã resumiu bem: “o modernismo chutou o balde. Vinícius tentou ajudar, mas olha o que eles fizeram…”. A mim, só restou dizer que “já dizia Lulu Santos: ‘assim caminha a humanidade…'” e ela: “a passos de formiga e sem vontade”.

Revelação de última hora

Ela: porque ele faz sucesso se ele é feio, estranho e canta mal?
Eu: culpa do modernismo.
Ela: eu odeio o tropicalismo.

Acho que o movimento-antropofágico-pau-brasil tá de perna pro ar e repentinamente virou piada interna.

#2

Créu.

Sou
Nós

Sou nós
Sou só
Só nós
Sou nós.

Sou só nós.

Sou só eu ou essa música é linda demais? CD novo do Marcelo Camelo dispensa apresentações.

update: para os mais radicais, eu sei que isso não é um hai-kai, mas não consegui pensar em um nome melhor.

Quem observava aquele moço dormindo na calçada, envolvidos em farrapos não acreditaria se eu lhe dissesse que aquele pobre homem um dia havia sido um homem de negócios. Daqueles de terno e gravata, com barba feita e perfume importado. Daqueles com um carro de ar condicionado e direção hidráulica, bem sucedido e sem amor. O típico empresário.

Não era satisfeito porque havia falta. Sentia dor no pobre coração, que pulsava acelerado na academia às dez horas da noite, o único horário que havia disponível. Não tinha amor.

E por não ter amor, começou a andar distraído, olhando para o céu, admirando o seu infinito azul. Descobriu sozinho que o céu não é só azul e que as nuvens não só são brancas. Há cores nas nuvens, e nelas via branco, cinza, amarelo, laranja, vermelho… assim como o namorado descreve com precisão os olhos da namorada, esse homem conseguia esmiuçar as cores do céu.

Mas o céu, por ser muito longe, era paixão platônica demais, e o pobre coração batia sofrido calado no peito. E de tanto olhar para o céu, os pés perderam o caminho e tropeçaram na calçada sendo reformada próxima aonde seu carro estava estacionado. Na noite, aquele homem contemplou o asfalto.

O asfalto a luz da noite brilhava com tantos pontinhos luminosos dos reflexos das estrelas e da luz, dos faróis do carros e do semáforo que lembrou-se instantaneamente da cantiga que ouvia na sua infância. Cantarolou “se essa rua, se essa rua fosse minha…”.

Tomado de tamanha compaixão, decidiu morar por ali. Não sei que pensamentos lhe ocorrem naquele instante e quando o perguntei mais tarde, só me disse: apaixonei.

E desde então, dorme os dias quentes na calçada e permanece acordado a noite, suportando o frio contemplando sua luminosa amada.

Por não alcançar os céus, preferiu manter os dois pés no asfalto e se entregar.

* Inspirada na canção “Ana e o mar”, do Teatro mágico. Você consegue ouvi-la e adquiri-la gratuitamente aqui.

Página seguinte »