devaneio


Estou realmente estupefada de como um filme pode ser tão sutil e tão bom. Eu estou longe de ser crítica de cinema – ou, inclusive, ser levada a sério quando digo que um filme é bom – mas se eu fosse pedir para que você me ouça ao menos uma vez, peço-te agora.

Completando 40 anos, “2001…” é tão atual que me dar medo. Muito além da estética, que apresenta naves espaciais e efeitos visuais ainda mais tosco que Star Wars (mas com cenas primorosas, como o andar sem gravidade da aeromoça e o exercício físico dentro da Discovery), o filme é feito para aqueles que irão conseguir enxergar além do que os olhos nos mostram. E eu não me canso de repetir que os olhos nos cegam. E com apenas 40 minutos de diálogos, em um filme de 2 horas e 20 minutos de duração, e aonde 3 minutos de respiração é crucial, é difícil acreditar que ele não foi feito para pensar…

“Você está livre para especular como quiser sobre o sentido filosófico e alegórico do filme”. Estou especulando até agora. [1, 2]

Se você não viu nada de mais no filme, eu tenho a impressão de que você não entendeu nada…

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#1

Marrom é cor que só fica bonito em árvores mortas, com folhas caídas. Cai bem.

#2

Visão Metropolitana

Dois senhores de rua.
Um, parado próximo à ponte, apoiando ambas as mãos na cintura. observava o fluxo.
O outro, encostado em um pequeno arbusto, bradava sons inaudíveis, brindando o ar com o copo vazio. Erguia-o no ar e abaixava-o incessantemente.
Eu observava.

#3

Conversas de pai pra filha

“- Bob Dylan eu conheço, minha filha, eu não conheço são é (sic) esses zé-manés cantando as músicas deles, com essas calças tão apertadas… Deve ser pr’o sangue ir pr’o cérebro…”
“- … pra eles pensarem.”
“- É… vi no ‘Letra e Música'”.

#4

Tem dia que há tanta coisa pra registrar que eu fico com saudade dos dias parados. É raiva do cérebro lerdo.

Existe um cachorro na minha rua.

Ele, sem dúvida, é o cachorro mais livre que eu já vi em toda a minha vida. Ele nunca está preso a uma coleira e raríssimas vezes o vi trancafiado em sua casa.

Todo os dias, enquanto caminho em direção ao ponto de ônibus próximo da minha casa, via-o bisbilhotando a rua. Passava ao meu lado sem me dar a mínima. Não queria gratificação, nem respeito. Ele só queria mesmo era estar ali nas redondezas.

Quando atravessava a rua, olhava para os dois lados. A pista estava vazia. Então ele simplismente desfilava até o outro lado. Se surgia algum automóvel na pista, ele acelerava o passo e dava os seus pulinhos graciosos. Aqueles que cachorros bonitos sabem dar.

Quando eu chegava perto dele, ou qualquer outra pessoa, ele não se movia. Ele não tinha medo. Ele esperava. Acho que não temia se o próximo movimento ia ser um afago ou um safanão nas orelhas. Ao contrário de muitos de nós, ele esperava pelo outro.

Nunca vi o tal cachorro metido em latas de lixos. Quando tomava banho, ele ficava imóvel na calçada de sua casa e esperava enquanto o dono ensopava-o de água e sabão.

Já faz alguns dias que não o vejo e agora em sua antiga casa reside um outro cachorro. Um bem diferente, porque esse é daqueles alegrinhos. Vai ver que de tanto passear ele acabou indo, indo, indo até se perder de vez, como muitos de nós gostaríamos de fazer.

Ele deve estar bem, pois sabia se cuidar. E mal saberá um dia que existe um texto só pra ele o tal do cachorro da minha rua.

Essa pergunta me fez pensar… A vida? Há linearidade na vida? A Vida de agora definitivamente não é a mesma de alguns anos atrás. Com certeza, não é a mesma de ontem. Salvo algumas dúvidas, não é a mesma de ontem. Não é a mesma de agora!

E quer saber? Eu adoro.

Post de recomeço por saber que minha vida já não é mais a mesma de Janeiro. E nem a mesma de quando escrevi esse texto hoje a tarde.

Eu me lembro de que, quando era criança, eu gostava muito de quebra-cabeças. Para falar a verdade, eu ainda gosto muito de quebra-cabeças. O problema é que eu cresci e o tempo dos puzzles acabaram, e eu agora quebro a cabeça com outras coisas.

A minha inclinação à encaixes desde criança talvez seja um prenúncio de umas das coisas que mais me incomodam e incomodam a tantos outros: não encaixar.

Observando as crianças no meu lugar favorito de Vitória (foto acima) percebi o quanto excluir e deixar à parte funciona. Quem não obedecia a tia, ficava sentada no banco – meu banco – e não podia participar, se encaixar na brincadeira com as outras crianças…

Isso me fez pensar nas minhas próprias peças perdidas de quebra cabeça. A quantidade de peças que eu tentei encaixar mas que não serviam, porque eram peças maiores e eu ficava vagando no espaço vazio ou eram pequenas demais, e eu devia me espremer por entre os vãos até me encaixar.

Já experimentou encaixar uma peça errada e, ao fazer força, todas as outras se espalharem? Era assim mesmo: eu acaba, por fim, despedaçada.

Desde então, o problema não tem sido achar outras peças de outros quebra-cabeças para encaixarem-se a mim. E sim procurar quais das minhas próprias espalhadas  se encaixam corretamente no quebra cabeça de mim.

Para os dias sem escrever há desculpas. Mil, milhões. Talvez nenhuma valha a pena. Culpa de uma tempestade.

De qualquer forma, sempre fui formada de tempestade. Contidas, claro. Poucos são os que presenciaram as chuvas e os relâmpagos. Os que viram ficam encabulados, não sabem o que fazer.

São tempestades de alegria as vezes. Muito pouco notificadas, mas há. A maioria são notificadas, vistas, presenciadas por quem não sabe o que está acontecido. E acaba sempre surpreendido com uma explosão de sorriso sem explicações no ônibus lotado. Os anônimos não sabem o que está acontecendo.

As tempestades são as manisfestações mais genuínas da minha natureza. Como uma paisagem tropical. Aliás, bem parecida: quase nada desbravada. Tantos espaços, recantos, grutas, montanhas, mares e rios há serem descobertos. Por mim, inclusive.

As tempestades começam o cimo do corpo. A na cabeça surge a explosão. O raios e relâmpagos percorrem todo o corpo. É daí que surgem todas as sensações novas e conhecidas, os pensamentos, os conhecidos brainstorms… ao contrário do que pode parecer, no choro e no desespero são quando muitas coisas se tornam mais lúcidas. Na tempestade dos ônibus da grande vitória é aonde escrevo os textos e poesia mais belas. É aquilo que dizem: genialidade da loucura. Tão real.

A contenção termina no momento que a explosão acontece nos olhos. É aí que eu realmente começo a chover. Trovejo. Há terremotos, maremotos. E vem a paz. A calmaria. Coisas da natureza: não se sabe até quando.

(Uma pequena observação: primeiro texto escrito na crise. Crise é essencial. )

Mulher prendada é aquela que existe aos montes por aí. Aquela que desde criança sonha em casar, ter filhos, ter um marido que a ama, uma família bonita como a da Barbie e ainda ter tempo pra trabalhar fora. É aquela que tem tempo pra tudo. Mulher prendada é aquela que faz jus à máxima de que mulher na escola é mais inteligente que menino. Aquela que não gosta de biologia, mas faz questão de decorar o ciclo reprodutivo das árvores.

Mulher prendada é aquela que estuda a semana inteira, presta atênção nas aulas, brinca na sala de aula e nunca é colocada pra fora de sala – porque sabe o momento certo de calar – e ainda arranja um tempo o meio do cansaço de ir ao cinema com as amigas e amigos. É aquela que no terceiro ano some da vida social fora da escola e passa no vestibular que queria.

É aquela que passa mais 4 ou 5 anos estudando e inventando horas para dar conta de tudo. Fica até mais fácil depois de ensaiar tanto tempo no ensino médio. E é aquela que dá conta de tudo. E consegue arrajar um tempo para ter namorado, amá-lo com afinco, se arrumar para sair com ele a noite.

Mulher prendada é aquela que consegue ensinar seu namorado a namorar em todos os relacionamentos. É aquela que aguenta aquela pisada de bola e consegue dizer para não se preocupar, que ela entende e que sabe que ele vai melhorar. É aquela que sabe dá uma segunda chance para ele, porque ela consegue ver e acreditar que ele pode. E é aquela que mesmo com lágrimas reconhece que é hora de acabar. E acaba.

É aquela que trabalha o dia inteiro, consegue ficar noiva e dar conta de todos os preparativos para o casamento. Planeja tudo nos mínimos detalhes e consegue fazer sair tudo do jeito dela, fazendo o seu noivo acreditar que também tomou algumas decisões.

É aquela que vai pra lua de mel, se diverte e volta a vida real numa boa. Que mesmo na correria, tem coragem de ter um filho. Abre mão do corpo que por tanto tempo ela cuidou para que ele sempre a achasse bonita, sem arrependimento das vezes que fechou a boca antes que ele percebesse que ela havia engordado, e se sente feliz por ele estar achando que, a medida que ela engorda e a barriga cresce, ele vê nela cada dia uma mulher mais completa.

É aquela que tem o seu querido bebê, que abre mão da sua dedicação ao trabalho para se concentrar ainda mais na sua família, nas noites mal dormidas e aparecer ainda linda com os quilinhos a mais – que nem são tão a mais assim.

É aquela que cuida dela, do marido, do namorado, da casa, dos pais, dos filhos, do emprego, da amiga. É aquela que às vezes sofre por achar que estar segurando coisa de mais, mas continua em pé e se esforça para explicar isso ao companheiro, para que ele a ajude. E se ela realmente é uma mulher prendada, soube escolher um homem que consegue a entender e a ajuda.

E mulher prendada é aquela que depois de tudo isso, ou saber que vai passar por isso, ainda consegue pregar botão, lavar, passar, e ficar sábado na cozinha fazendo um bolo especial para provar que ela pode realmente tudo.

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