Para ler ouvindo. E depois assistir.


Eu vou-me porque não quisera amar mais, desistiu dos sonhos, de tudo o que eu fiz. Enfrentei o que antes não me importava mais, aquilo que eu, tola, afoguei.

Não quisera mais dar-me filhos do amor. Os filhos do amor eram os beijos, o abraços, as mãos dadas no escuro, os risos nos olhos, as corridas ao lugares secretos…

Morri em mim mesma e esse é um adeus. Se eu fosse jovem, fugiria dessa cidade, beberia até morrer. Assisto eles rasgarem o silêncio de nosso acampamento. Começou a estação das caças aos amores Romeu & Julieta.

update: download da música aqui.

Quem está ansioso por Capitu? Assistam e depois me digam o que achou.

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Aproveitando a chuva, decidi matar aula pra ficar em casa e adiantar alguns trabalhos de faculdade. Dentre os trabalhos finais, eis um deixado para última hora – sempre tem um desse… – para a disciplina de Psicologia Comunitária, que na verdade estuda a temática “Família”. Estou bem eu escrevendo sobre as mudanças no conceito de família, sobre as questões de mães/pais solteiros, homoparentalidade e sobre a questão dos papéis dentro da família, sobre os filhos poderem e terem o espaço de ensinar os pais…

Daí meu telefone celular toca. Meu pai. A pergunta do outro lado: “Filha, você sabe a minha senha do msn?”. “Pai, você não decorou?” “Liguei pra Laisa mas ela também não sabe… vê aí pra mim quantas bolinhas são…”

É uma pena trabalho científico de faculdade não incluir peripécias da vida privada. A não ser, claro, que tenha uma singela “Ambrósio et al, 2008″ no final da citação.

ps: e faltam quantos dias mesmo para as férias?

Quem observava aquele moço dormindo na calçada, envolvidos em farrapos não acreditaria se eu lhe dissesse que aquele pobre homem um dia havia sido um homem de negócios. Daqueles de terno e gravata, com barba feita e perfume importado. Daqueles com um carro de ar condicionado e direção hidráulica, bem sucedido e sem amor. O típico empresário.

Não era satisfeito porque havia falta. Sentia dor no pobre coração, que pulsava acelerado na academia às dez horas da noite, o único horário que havia disponível. Não tinha amor.

E por não ter amor, começou a andar distraído, olhando para o céu, admirando o seu infinito azul. Descobriu sozinho que o céu não é só azul e que as nuvens não só são brancas. Há cores nas nuvens, e nelas via branco, cinza, amarelo, laranja, vermelho… assim como o namorado descreve com precisão os olhos da namorada, esse homem conseguia esmiuçar as cores do céu.

Mas o céu, por ser muito longe, era paixão platônica demais, e o pobre coração batia sofrido calado no peito. E de tanto olhar para o céu, os pés perderam o caminho e tropeçaram na calçada sendo reformada próxima aonde seu carro estava estacionado. Na noite, aquele homem contemplou o asfalto.

O asfalto a luz da noite brilhava com tantos pontinhos luminosos dos reflexos das estrelas e da luz, dos faróis do carros e do semáforo que lembrou-se instantaneamente da cantiga que ouvia na sua infância. Cantarolou “se essa rua, se essa rua fosse minha…”.

Tomado de tamanha compaixão, decidiu morar por ali. Não sei que pensamentos lhe ocorrem naquele instante e quando o perguntei mais tarde, só me disse: apaixonei.

E desde então, dorme os dias quentes na calçada e permanece acordado a noite, suportando o frio contemplando sua luminosa amada.

Por não alcançar os céus, preferiu manter os dois pés no asfalto e se entregar.

* Inspirada na canção “Ana e o mar”, do Teatro mágico. Você consegue ouvi-la e adquiri-la gratuitamente aqui.

Existe um cachorro na minha rua.

Ele, sem dúvida, é o cachorro mais livre que eu já vi em toda a minha vida. Ele nunca está preso a uma coleira e raríssimas vezes o vi trancafiado em sua casa.

Todo os dias, enquanto caminho em direção ao ponto de ônibus próximo da minha casa, via-o bisbilhotando a rua. Passava ao meu lado sem me dar a mínima. Não queria gratificação, nem respeito. Ele só queria mesmo era estar ali nas redondezas.

Quando atravessava a rua, olhava para os dois lados. A pista estava vazia. Então ele simplismente desfilava até o outro lado. Se surgia algum automóvel na pista, ele acelerava o passo e dava os seus pulinhos graciosos. Aqueles que cachorros bonitos sabem dar.

Quando eu chegava perto dele, ou qualquer outra pessoa, ele não se movia. Ele não tinha medo. Ele esperava. Acho que não temia se o próximo movimento ia ser um afago ou um safanão nas orelhas. Ao contrário de muitos de nós, ele esperava pelo outro.

Nunca vi o tal cachorro metido em latas de lixos. Quando tomava banho, ele ficava imóvel na calçada de sua casa e esperava enquanto o dono ensopava-o de água e sabão.

Já faz alguns dias que não o vejo e agora em sua antiga casa reside um outro cachorro. Um bem diferente, porque esse é daqueles alegrinhos. Vai ver que de tanto passear ele acabou indo, indo, indo até se perder de vez, como muitos de nós gostaríamos de fazer.

Ele deve estar bem, pois sabia se cuidar. E mal saberá um dia que existe um texto só pra ele o tal do cachorro da minha rua.